Martha Ortiz usou inteligência artificial para sugerir combinações de ingredientes no festival Apapaxoa e concluiu que a máquina não compreende a fome. Para empresas, o episódio reforça que IA generativa amplia repertório, mas não substitui contexto, cultura e julgamento humano na tomada de decisão.
Introdução contextual
A adoção de inteligência artificial generativa deixou de ser experimento de laboratório e passou a ocupar o centro das discussões de estratégia corporativa. Ferramentas capazes de sugerir textos, imagens, fórmulas e combinações inusitadas de insumos são apresentadas como alavancas de produtividade e inovação. No entanto, à medida que a tecnologia se espalha por setores criativos, torna-se evidente que a capacidade de gerar variações não equivale à capacidade de compreender o problema que se pretende resolver.
Um episódio recente no universo gastronômico ajuda a ilustrar essa distinção com clareza. Durante o festival Apapaxoa, a chef mexicana Martha Ortiz e uma especialista em tecnologia exploraram combinações de ingredientes sugeridas por inteligência artificial. A conclusão registrada pela própria chef foi direta: a máquina não consegue entender a fome. A frase, aparentemente poética, carrega uma tese executiva relevante: modelos generativos operam sobre padrões estatísticos, não sobre experiência vivida, memória cultural ou urgência humana.
Para líderes que avaliam investimentos em IA, o caso serve como alerta contra o entusiasmo acrítico. A tecnologia é poderosa para ampliar repertório, acelerar prototipagem e reduzir custo de experimentação. Mas decisões que envolvem pessoas, territórios, culturas e necessidades reais continuam dependendo de interpretação humana. A notícia, publicada pelo Estadão, oferece um ponto de partida útil para discutir onde a IA agrega valor e onde ela apenas simula competência.
O que aconteceu
No festival Apapaxoa, Martha Ortiz, uma das vozes mais reconhecidas da cozinha mexicana contemporânea, trabalhou ao lado de uma especialista em tecnologia para testar sugestões de pratos geradas com auxílio de inteligência artificial. A proposta era usar a ferramenta como parceira criativa: a partir de ingredientes, referências e restrições, o sistema propunha combinações que dificilmente surgiriam de forma espontânea.
O exercício produziu resultados interessantes do ponto de vista de repertório. A IA foi capaz de cruzar sabores, texturas e tradições culinárias em velocidades que um humano levaria muito mais tempo para alcançar. Esse é um benefício concreto: a máquina não se cansa, não tem apego a convenções e pode explorar um espaço de possibilidades amplo em segundos.
O limite apareceu em outro plano. Ao avaliar as sugestões, a chef concluiu que a ferramenta não compreende a fome. A observação não se refere apenas ao apetite fisiológico, mas a todo o contexto que envolve alimentar alguém: memória afetiva, restrições econômicas, sazonalidade, identidade cultural, hospitalidade e o significado social da refeição. A IA entrega combinações plausíveis; não entrega sentido.
O episódio dialoga com uma discussão mais ampla sobre IA generativa. Modelos de linguagem e de imagem são treinados em grandes volumes de dados e otimizados para prever padrões. Eles não têm intenção, experiência corporal ou consciência do problema. Quando aplicados a domínios criativos, funcionam como motores de variação, não como intérpretes da realidade.
Por que isso importa para empresas
A conclusão da chef mexicana tem valor executivo porque desloca a pergunta central. Em vez de perguntar apenas "o que a IA pode fazer?", organizações precisam perguntar "o que a IA não pode decidir sozinha?". Essa mudança de enquadramento afeta estratégia, operações, marketing, produto e governança.
Primeiro, a IA generativa é excelente para ampliar o espaço de busca. Em inovação, isso significa gerar hipóteses, cenários e protótipos com custo marginal baixo. Empresas que tratam a ferramenta como copiloto criativo tendem a ganhar velocidade. O erro está em confundir velocidade de geração com qualidade de decisão.
Segundo, o caso reforça a importância do contexto proprietário. Dados internos, histórico de clientes, cultura organizacional, restrições regulatórias e conhecimento tácito de equipes são ativos que modelos genéricos não capturam automaticamente. A vantagem competitiva não está no acesso ao modelo, mas na capacidade de conectá-lo a esse contexto e de validar suas saídas com julgamento humano.
Terceiro, há um risco reputacional e de marca. Uma sugestão algorítmica pode ser tecnicamente válida e culturalmente inadequada. Em setores como alimentos, moda, entretenimento e comunicação, ignorar sensibilidade local pode gerar reações negativas, boicotes ou perda de confiança. A frase "a máquina não entende a fome" é, nesse sentido, uma metáfora para a incapacidade de captar necessidades não expressas.
Quarto, o episódio ajuda a calibrar expectativas de liderança. Executivos que prometem transformação radical com IA sem redesenhar processos, papéis e critérios de decisão tendem a colher frustração. A tecnologia funciona melhor quando inserida em fluxos claros, com responsabilidades definidas e métricas de qualidade que vão além da fluência da resposta.
Impacto para cibersegurança, governança, IA ou continuidade
Do ponto de vista de governança, o caso ilustra a necessidade de políticas de uso que definam onde a IA pode sugerir e onde ela não pode decidir. Em ambientes regulados, como saúde, finanças e alimentos, decisões automatizadas precisam de trilhas de auditoria, revisão humana e critérios de explicabilidade. A pergunta "quem responde por esta escolha?" deve ter resposta clara antes da implantação.
Em cibersegurança, a mesma lógica se aplica. Modelos generativos podem ajudar a detectar anomalias, redigir relatórios e simular cenários de ataque, mas não substituem análise de risco contextual. A superfície de ataque de uma organização depende de arquitetura, cultura, fornecedores e comportamento humano. Delegar essa leitura a um sistema treinado em dados públicos é insuficiente e potencialmente perigoso.
Na dimensão de continuidade de negócios, a dependência excessiva de um único fornecedor de IA ou de um modelo específico cria risco operacional. Empresas precisam de planos de contingência, portabilidade de dados e alternativas caso a ferramenta falhe, mude de política ou se torne indisponível. A resiliência não está apenas na infraestrutura, mas na capacidade de manter decisões críticas funcionando sem automação.
Há ainda a questão da qualidade dos dados. Sugestões criativas são tão boas quanto o repertório que as alimenta. Se os dados de treino não representam a diversidade de clientes, regiões e contextos, as saídas tendem a reproduzir vieses. Governança de IA, portanto, é também governança de dados e de representatividade.
Leitura executiva da WSVP
A WSVP entende que o episódio do festival Apapaxoa não é uma anedota sobre gastronomia, mas um estudo de caso sobre maturidade digital. A IA generativa é uma tecnologia de amplificação: ela amplia a capacidade de gerar opções, mas também amplia a necessidade de critérios para escolher entre elas. Organizações que tratam a ferramenta como oráculo tendem a terceirizar julgamento e a colher decisões desconectadas da realidade.
Nossa leitura é que a vantagem competitiva sustentável está na combinação de três elementos: dados proprietários de qualidade, times capazes de interpretar contexto e processos de decisão que integrem revisão humana. A IA não elimina a necessidade de especialistas; ela desloca o valor deles para camadas mais altas de interpretação, curadoria e responsabilidade.
Também avaliamos que o debate sobre "substituição de profissionais" é menos produtivo do que o debate sobre "redesenho de funções". A chef mexicana não foi substituída pela máquina; ela usou a máquina para expandir seu repertório e, em seguida, aplicou seu julgamento para filtrar o que fazia sentido. Esse é o modelo que recomendamos: IA como copiloto, humano como piloto.
Por fim, a frase "a máquina não entende a fome" deve ser lida como um princípio de design. Sistemas de IA precisam ser avaliados não apenas por acurácia técnica, mas por adequação ao problema humano que pretendem resolver. Sem essa bússola, a inovação vira ruído.
Recomendações práticas
- Defina o que a IA pode sugerir e o que exige decisão humana. Mapeie processos e classifique atividades por risco e reversibilidade.
- Invista em contexto proprietário. Dados internos, histórico de clientes e conhecimento tácito são o que diferencia saídas genéricas de recomendações úteis.
- Crie comitês de revisão com especialistas de domínio. Ninguém deve publicar ou executar uma saída crítica sem validação de quem entende o negócio.
- Estabeleça trilhas de auditoria. Registre prompts, versões de modelo, fontes de dados e decisões tomadas para garantir explicabilidade.
- Teste sensibilidade cultural e regional. Antes de lançar campanhas, produtos ou cardápios, valide com públicos diversos.
- Planeje contingência. Tenha alternativas caso o fornecedor de IA falhe, mude de política ou aumente preços.
- Meça o que importa. Vá além de métricas de fluência e avalie impacto em clientes, receita, risco e reputação.
- Capacite times. Alfabetização em IA deve incluir limites, vieses e responsabilidades, não apenas comandos e ferramentas.
Fontes consultadas
- Estadão — Chef mexicana usa IA para criar pratos e conclui: máquina não consegue entender a fome
- Estadão Paladar
Disclaimer
Este rascunho foi produzido com apoio de inteligência artificial e ainda requer revisão humana antes da publicação.


